SERES - regressar ao ínicio

Notícias

2009-12-14 21:11:18
Sida: idosos pensam que só acontece aos jovens

"Assiste-se a uma desvalorização desta doença na população de meia-idade e nos idosos, que pensam que a sida só acontece aos mais novos", disse à Lusa a presidente da Liga Portuguesa Contra a Sida (LPCS), a propósito do Dia Mundial de Luta contra a Sida, que se celebra terça-feira.

Para levar informação aos mais velhos sobre prevenção e transmissão da infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), a LPCS criou o projecto "Conviver com Segurança e Prazer", que é levado às universidades sénior, mas também a locais de lazer, como os bailes no Mercado da Ribeira, no Cais do Sodré, em Lisboa. Estes bailes são frequentados, na sua maioria, por pessoas com mais de 45 anos.

Aqui, os técnicos ouvem comentários que os deixam apreensivos, como o de uma mulher de 53 anos que afirmava: "Eu até estou na menopausa, isso [o preservativo] não é para mim, é para os jovens". "Eu não sei explicar, mas não apanho nada dessas doenças.

Acho que o meu organismo tem defesas. Quando estive no Ultramar, um colega meu apanhou e eu também tinha estado com a mesma mulher. Fui ao médico e não tinha nada", acrescentou um homem de 63 anos, que não quis revelar o nome, assim como todos os outros que frequentavam o baile.
Apesar de aparentar não ter receio de contrair a doença, o mesmo homem questionou os técnicos sobre o local onde podia fazer o teste do VIH/sida. "Sabe, envolvi-me há cerca de duas semanas com uma mulher casada e não usei preservativo.

Eu confio nela, é uma pessoa saudável e foi só uma vez, agora tenho usado sempre preservativo", desabafou. Para Eugénia Saraiva, "mais do que dizer a uma pessoa com mais de 50 anos como se coloca um preservativo, é importante dizer-lhe para fazer o diagnóstico" e explicar-lhe que se estiver infectado há tratamento para a doença.
"Está ainda muito presente na sociedade a ideia de que as pessoas com mais idade não têm uma vida sexualmente activa, o que sabemos não ser verdadeiro. É uma população vulnerável, pois não está consciente dos riscos que corre", alertou. Recentemente, um estudo dos Hospitais da Universidade de Coimbra revelava que uma em cada oito pessoas infectadas pelo VIH em Portugal tem mais de 50 anos, uma percentagem que tende a aumentar.

"O aparecimento de novos fármacos que promovem uma vida sexual activa contribui largamente para este facto, além de que os idosos pertencem a uma faixa etária muito pouco informada acerca dos perigos de contágio devido à ausência de campanhas de sensibilização que visem uma atitude defensiva, como o uso do preservativo", referem os autores do estudo.

Apesar de algum desconhecimento sobre a doença, há pessoas mais velhas que manifestam ter cuidado nas suas relações. "Há cerca de um ano tive uma senhora, lá em França, e só depois de ter acabado com ela é que comecei a pensar se teria apanhado alguma coisa. Enquanto não fiz o teste, não descansava, não vivia", começou por contar um idoso (68 anos). "Disse a uns amigos que ia à médica de família e eles disseram para eu não ir porque ela contava a outras pessoas. Mas fui e foi o melhor que podia ter feito, porque ela mandou fazer os testes e quando soube que não estava infectado, senti um alívio muito grande", recordou.

Fonte: Diário de Notícias