novidades na cura para o VIH
Cientistas estão a explorar as diferentes maneiras para que as pessoas que vivem com o VIH sejam funcionalmente curadas da sua infeção. Aqui são apresentados estudos recentes e futuros envolvendo duas dessas estratégias: vacinas terapêuticas e anticorpos amplamente neutralizantes. A maioria das pesquisas apenas envolveu até agora modelos animais, geralmente macacos rhesus infetados com o SVIH, a versão símia do VIH, mas os ensaios clínicos que começam no final deste ano examinarão ambos os caminhos para a cura do VIH em humanos. A fim de erradicar o vírus a partir de um animal ou do corpo de uma pessoa considera-se a neutralização ou excisão não só da porção do vírus que se replica, mas também do reservatório viral de VIH. Isso provavelmente vai exigir uma combinação de diferentes estratégias. O Dr. Dan H. Barouch explica-nos.
Estratégias de Erradicação do VIH
Sete estratégias para erradicar o VIH estão a ser, atualmente, estudadas: – iniciar a terapia antirretroviral (TAR) logo após a infeção inicial, ativar o reservatório do vírus latente, modular o próprio sistema imunológico da pessoa infetada para ajudar a combater o VIH por si, modificar o material genético quer do vírus para torná-lo menos infeccioso quer da pessoa infetada para proporcionar imunidade contra o VIH, o transplante de medula óssea, a fim de restabelecer o sistema imunológico não infetado da pessoa, e com vacinas terapêuticas ou anticorpos amplamente neutralizantes para manter a carga viral de uma pessoa em níveis não detetáveis sem TAR.
As vacinas terapêuticas
Algumas vacinas terapêuticas (Ad26) induzem uma resposta imunitária significativa em macacos rhesus infetados com o SVIH. Ter começado a TAR no prazo de sete dias desde o inicio da infeção parece ajudar neste processo. Num estudo, as células T dos animais tiveram uma melhor resposta à vacina se tivessem recebido anteriormente TAR – mesmo em comparação com animais que não foram infetados com o SVIH. No entanto, continua para se ver se a resposta imunitária pode ser sustentada após parar a TAR nos macacos infetados com SVIH, e sobretudo em seres humanos. A melhor maneira de usar estes vacinas terapêuticas na cura funcional do VIH será provavelmente combiná-las com compostos que reativem o reservatório do vírus latente que o VIH estabelece no início do processo de infeção, chamados “agentes de reativação da latência”. Esta estratégia é chamada de “chocar e matar”(shock and kill). ”
Anticorpos para a Prevenção do VIH
Anticorpos amplamente neutralizantes podem ser utilizados de diferentes formas: para prevenir o VIH, quer antes da pessoa ser exposta ao vírus ou pouco tempo após a exposição; como tratamento para a infeção por VIH ou como parte de uma estratégia para curar as pessoas infetadas com VIH. Uma estratégia de cura tornou-se possível, nos últimos cinco anos, com o desenvolvimento de anticorpos muito mais potentes.
Os anticorpos amplamente neutralizantes têm como alvo três locais diferentes dentro da molécula: V2, CD4bs e V3. Os estudos em macacos rhesus têm mostrado que um dos agentes que atinge o V3 – PGT121, pode proteger contra determinadas estirpes de SVIH. PGT121 pode, portanto, ser útil como um componente de uma estratégia baseada em terapia medicamentosa para a prevenção do VIH.
Anticorpos Amplamente Neutralizantes para Curar a Infeção Crónica por VIH
Enquanto os macacos cronicamente infetados pelo SVIH tratados com PGT121 e TAR foram inicialmente capazes de suprimir o vírus, mesmo quando não tratados com antirretrovirais, o SVIH eventualmente retornou. O tempo entre a interrupção do tratamento e a recuperação viral dependia da carga viral do animal antes de iniciar o tratamento ao SVIH: quanto menor a carga viral, maior o tempo até retomar os antirretrovirais. Isto demonstra que os anticorpos amplamente neutralizantes podem ser úteis na supressão do vírus entre pessoas que foram infetadas com VIH há algum tempo, mas, a longo prazo, unicamente esta estratégia é insuficiente para curá-las do VIH.
Anticorpos Amplamente Neutralizantes para a Cura da Infeção Aguda pelo VIH
Um estudo com 64 macacos rhesus comparou nenhum tratamento com apenas TAR, com apenas PGT121 e uma combinação de TAR e PGT121. O tratamento foi iniciado três ou sete dias após a infeção. Enquanto todos os animais foram capazes de suprimir o vírus SVIH a níveis indetetáveis durante o tratamento, um reservatório de células infetadas com o SVIH foi mesmo assim estabelecido e, eventualmente, causou o reaparecimento do SVIH em todos os animais de laboratório. O período entre a paragem da TAR e o retorno do SVIH para níveis detetáveis foi mais longo no grupo que recebeu tanto a TAR e PGT121 três dias depois de ter sido infetado com SVIH. Assim, apesar de nenhum dos animais terem sido realmente curados do SVIH, a combinação de anticorpos amplamente neutralizantes e tratamento antirretroviral (TAR) precoce parece ser uma via promissora para um estudo mais aprofundado.
Plano para Estudo de PGT121 em humanos
O ensaio humano irá combinar PGT121 com outros anticorpos que são ou específicos para um local de ligação nas células CD4 ou dependem de um glicano V2. No laboratório, todos os anticorpos amplamente neutralizantes, a serem usados neste ensaio, demonstraram ser eficazes contra quase dois terços do vírus. Aqui, a maioria das estirpes de VIH que não estão cobertas pela PGT121 são cobertas por anticorpos complementares. Como resultado, durante a pesquisa prévia, a combinação de PGT121 e um dos outros anticorpos foi capaz de neutralizar mais de 90% do VIH. No entanto, os métodos atualmente disponíveis para a deteção do vírus no sangue, no trato gastrointestinal ou no tecido linfonodo (gânglios linfáticos), embora altamente sensíveis (menos de três cópias do vírus em um milhão de células), ainda não são suficientes para prever quem, e quando, vai experimentar uma replicação viral.
Onde é que isto nos deixa?
De acordo com Barouch, as vacinas terapêuticas e anticorpos amplamente neutralizantes são estratégias promissoras para o desenvolvimento de uma cura funcional para o VIH. No entanto, é improvável que apenas uma estratégia possibilite uma maneira de erradicar o VIH do corpo de uma pessoa infetada. A combinação de intervenções será, portanto, necessária. Embora o objetivo final seja encontrar uma cura para o VIH humano, estudos que envolvem macacos rhesus infetados com o SVIH são úteis para testar novas abordagens para atingir este objetivo. Ainda assim, os dados de modelos animais devem ser confirmados através de pesquisa com seres humanos. Para este efeito, ensaios clínicos humanos que incluem uma vacina terapêutica (Ad26 / MVA) e um anticorpo amplamente neutralizante (PGT121) vão começar ainda este ano.
Fonte: BodyPro
Imagem: Dan H. Barouch, M.D., Ph.D., apresentado em ASM Microbe 2016.
