Seres: 20 Anos a Mudar Vidas
Seres: 20 Anos a Mudar Vidas. O Desafio Agora É Global.
A Seres é mais do que uma associação; somos o primeiro e único refúgio, a rede de apoio e a voz incansável das mulheres que vivem com o VIH em Portugal. Ao longo de 20 anos, transformamos vidas através do apoio entre pares, formação, literacia em saúde e da defesa intransigente dos seus direitos.
O nosso trabalho teve um impacto real nas mulheres nacionais. Contudo, para sermos verdadeiras à nossa missão de apoio a todas as mulheres, temos de enfrentar a emergência que as estatísticas revelam.
📊 A Realidade do VIH em Portugal: Os Dados do INSA 2024
Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) tornam inegável a necessidade de direcionar a nossa intervenção para as mulheres migrantes.
I. O Perfil Epidemiológico Feminino
- Novos Casos: Em 2024, 27,2% dos novos diagnósticos de VIH em adolescentes e adultos foram em mulheres.
- Modo de Transmissão: A principal via de infeção continua a ser a transmissão heterossexual, respondendo por 89,5% dos novos casos femininos.
- Diagnóstico de SIDA: Dos novos casos de SIDA em 2024, 35,6% foram em mulheres, também predominantemente por transmissão heterossexual (87%).
- Idade ao Diagnóstico: A idade mediana ao diagnóstico foi de 43 anos para o VIH e 44 anos para a SIDA, sugerindo diagnósticos tardios.
II. O Foco Crítico: Mulheres Migrantes
O panorama geral dos novos diagnósticos de VIH (englobando ambos os géneros) já demonstra que a maioria ocorreu em pessoas nascidas fora de Portugal (53,6%). Mas o impacto nas mulheres é gritante:
- Proporção Alarmante: As mulheres migrantes representam aproximadamente 4 em cada 10 novos diagnósticos femininos.
- Origem Geográfica: A maioria provém de países da África Subsariana, com destaque para as cidades de Amadora, Sintra e Odivelas, onde a maioria dos casos em mulheres ocorreu em pessoas nascidas nestes países. Há também casos relevantes de mulheres oriundas da América Latina.
- Vulnerabilidade e Acesso:
- As mulheres migrantes enfrentam taxas ainda mais elevadas de diagnóstico tardio, muitas vezes devido a barreiras linguísticas, culturais ou administrativas no acesso ao sistema de saúde.
- O relatório sublinha que este grupo enfrenta maior vulnerabilidade social e económica, o que aumenta o risco de infeção e dificulta a adesão ao tratamento.
III. A Prevenção da Transmissão Vertical (Mãe-Filho)
O acompanhamento da gravidez revela a urgência de uma resposta focada:
- Incidência: Entre 2015 e 2024, nasceram 2.185 crianças de mães a viver com o VIH, com uma taxa de transmissão mãe-filho de apenas 0,73%.
- Origem das Mães: Desde 2017, predominam as mães de nacionalidade estrangeira, maioritariamente de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
- Diagnóstico Tardia e Origem Africana: Nos casos de diagnóstico da infeção pelo VIH que ocorreu durante a gravidez (o que implica maior risco de transmissão), 72,3% eram mulheres de origem africana. Cerca de 52,5% destas mulheres viviam em Portugal há um ano ou menos.
IV. Discriminação e Direitos
- Discriminação: 158 mulheres que vivem com VIH relataram algum tipo de discriminação relacionada à infeção.
- Direitos: A Seres alinha-se com a conclusão do INSA: a igualdade de género é essencial para uma abordagem eficaz à SIDA, com ênfase no cumprimento dos direitos humanos e fundamentais das pessoas afetadas.
📢 O Chamamento da Seres
O novo foco da Seres nas mulheres migrantes não é uma opção, é um imperativo de saúde pública e de direitos humanos. Elas estão a ser diagnosticadas mais tarde e enfrentam maiores barreiras no acesso e na adesão ao tratamento.
A Seres tem o conhecimento, a experiência de 20 anos de apoio entre pares e a missão. Agora, precisamos de reorientar os nossos recursos para ir ao encontro destas mulheres e garantir que a sua voz seja ouvida e os seus direitos sejam protegidos.
